Crônicas
16/07/2010
Uma aliança, imagine a senhora que uma rodelinha de metal vagabundo, quiçá presenteada por um apedeuta qualquer, foi responsável por dilacerar e jogar aos cães um par de sonhos; uma meia dúzia de planos. Uma simples aliança rasgou da estante a foto das crianças na Disney, quebrou da cristaleira o jogo de taças artesanais da Patagônia, presente de uma tia ou de amigos próximos.
Veja a senhora que eu olhava inocentemente um par de sapatos. Saltos honestos, dois centímetros, talvez, forrados de um pano preto, que se estendia para a lateral do par de pés brancos. As peles finas desse par de pés deixavam sorrateiramente ver uma ou outra veia roxinha, como o véu das dançarinas egípcias, que esconde o óbvio e seduz pelas frestas com os segredos que revela como iscas. E antes de cair em si, o observador já está laçado e vítima de seus perfumes.
Pois olhava eu esse par de sapatos, que guardavam pés, quando de repente fui surpreendido por duas panturrilhas viçosas embaladas até a metade superior por um tecido escuro que lhes envolvia fielmente às curvas e, sem mostrar, me dava a certeza de que a maciez da pele e a textura das carnes que se expunham — uma delas enlaçada por uma tornozeleira dourada que badalava um pingente que lembrava um anjo — era a mesma das que se reservavam sob o tecido.
Nada me tiraria a concentração naquele momento não fosse notar que dos joelhos finos para cima ganhavam forma um par de coxas de veludo semiescondidas pela barra de um vestido xadrez, que me servia as peças e convidava a deleitar-me num embate de bispos e rainhas, numa fuga de cavalos e torres; ou quem sabe a me esconder num dos bolsos que furtivamente se enrugavam sob o jugo de um elástico. Me fazia pensar que a vida, sim minha senhora, a vida caberia toda n’apenas um daqueles bolsinhos.
Veja a senhora que eu sequer nem filho de costureira pude ser, para saber dizer se poucos metros ou com quantos quilos de tecido branco eu enoivaria aquela forma plácida que segurava a bolsa com a mesma mão que jogaria as flores para as costas, onde as amigas ímpares se degladiariam por talvez beber da mesma sorte.
Pedi intimamente para que não se virasse, mas ela, como se tendesse a um certo sarcasmo deu dois passos rumo à borda da calçada, mostrou-me os ombros salientes — uma estância de reconforto — nas costas cavadas do vestido que escorria pela lombar e emoldurava as ancas fartas e desenhadas por algum daqueles nomes de pintores renascentistas. E ergueu o braço acenando ao ônibus, que mais que depressa respondeu com a seta — encostaria, sim, e a levaria onde quisesse. E então o sol, que vazava pelos vãos dos prédios que ciliam a avenida Paulista, às dez e pouco da manhã, iluminou-lhe a mão direita refletindo uma luz cegante vinda daquela aliança, que de um facho me arrebatou os olhos e, sem esperar, amorteceu o coração. Sim, minha senhora, isso é como a morte para um amor que já nascia leve, que já cosia os rumos de uma vida intensa e a dois.
Crônicas
29/06/2010
Você tem hanseníase? Fibrose cística, Aids, esclerose múltipla, cegueira? Alienação mental? Não, não é a letra de “O pulso” dos Titãs. É a lista das doenças que a Receita Federal considera graves e, por isso, isentará do imposto de renda seus portadores. Só uma coisa, a regalia serve apenas para aposentados e pensionistas. E pra legitimar o pedido, só sob a cunha do serviço médico oficial.
Ou seja, o sujeito sofre de cardiopatia grave, contaminação por radiação, nefrofatia grave, neoplasia malígna, doença de Paget em estados avançados e não é aposentado ou não pode enfrentar a fila do SUS, tem que pagar Imposto de Renda.
Mas o caso é que, seguindo a lógica da saúde pública e dos tramites mais simples da coisa pública num país demandoso como o nosso, capaz de o doente esperar na fila e não provar o quanto está doente. Por outro lado, como a maioria dos aposentados, doentes, velhos, crianças, jovens, da zona rural ou da cidade são pobres e não pagam Imposto de Renda mesmo — dados reais, com aval da ONU e tudo —, podemos voltar à nossa vida comum e tediosa.
Deu num jornal outro dia que 5%, isso, um a cada 20 brasileiros, segundo o IBGE, ganham mais de 800 reais por mês. Isso, cara leitora, a renda média per capita de 95% — nove e meio a cada dez — dos brasileiros é de até 800 reais.
E aí, se calha de a neoplasia ser benígna ou a cardiopatia vir leve; se dá da esclerose ser localizada ou a nefrofatia não ser assim assim, nêgo escancara um sorrisão e toca a vida numa boa. Ia pra malha do Leão porque estava na merda só até metadinha, mas, na ponta do lápis, é isento de renda, digo, de débitos com a União, então não vai pagar Imposto. Pudera.
Crônicas
18/06/2010
Encontrei entre os emails enviados uma carta a um amigo. E num acesso de nostalgia ou de súbito encanto com a beleza e a verdade do que foi dito (escrito) na carta, resolvi publicá-la aqui. Quem sabe de algum lugar, de alguma forma, esta carta não seja a de um pai para um filho, de um irmão que se mudou para Nova Iorque…
4º dia de maio de 2009.
Uma vez, no infinito da nossa adolescência, quando eu esgueirava pelo caminho que hoje é minha trilha para o fim (apenas porque esse é todo nosso destino), você me contou que teve um sonho. E, ao descrever-me, eu desconversei e disse que não seria possível — ingênuo como sempre.
No sonho você me assistia tocar, com meu violão folk, sozinho no palco. Você sabia que aquilo significava algo. Mas mesmo negando, a imagem me acompanhou por todo o tempo e a cada decisão nova, a cada situação nova, a cada Natal e Ano Novo, eu conferia à minha volta para ver quem estava sobre o palco. Então respondia para o Gil: tá vendo, Gil? Não tem o que temer, está todo mundo aqui no palco.
Então, ainda há pouco, a nuvem se dissipou e olhei em volta. Vi-me fazendo planos e considerando curto, médio e longo prazo, vi-me novamente sobre o palco. E cá está meu violão folk e meu banquinho, meu caro. Exatamente como descrito há poucos anos atrás, quando ainda o sinal estava fechado pra nós. Hoje o verde grita e, quer queiramos ou não, temos que nos mover para não sermos atropelados pela turba, pelo destino, pela culpa ou por nós mesmos.
Então, meu amigo, você estava certo e viu. Mas olho, ainda mais uma vez, para a cena e vejo que o que trilhei ao mesmo tempo que não era inexorável — posto que somos donos de nosso destino —, estava escrito nas estrelas dos meus anseios, das minhas buscas, das ilusões voluntárias. Essa liberdade que perseguimos, vorazes, existe no não-lugar. Livres para as escolhas e subjugados nas consequências somatizadas entre contexto, passado, presente e futuro. Somos donos do nosso destino, sim, mas ele reside no futuro e desse futuro não somos donos.
Agradeço o olhar, a dica e, se ainda houver tempo, olharei mais uma vez para mim sobre o palco como quem observa o futuro sem nele tocar. Ao menos para aprender com ele e não esquivar das oportunidades de ser feliz, em busca de toda sorte de desejos que não cabem no nosso pequeno embornal. Nunca fiz por ganância, ao menos não deliberadamente, nunca quis ser mais ou outra coisa que não o que sou; e não sou lunático o bastante para culpar o destino.
Grande abraço de saudades,
do amigo
Crônicas
17/06/2010
Desde que pensei em me despedir, pensei também em comprar um pijama. Não como os da minha namorada, desses de flanela com desenhos sutis e cara de boa noite. Não, um pijama simples, com cores pastéis e talvez algumas listras. Talvez assim retomasse minha feição de homem sério, uma vez que me despedi. Sim, me despedi da rotina das oito às seis. Pedi as contas, como dizem, dei balão geral, pulei fora, zarpei, tranquei a porta pelo outro lado.
E retomar a seriedade é caso sério. A gente se culpa, se sente menor, tem insônia… quase os mesmos desconfortos de uma rotina regular de trabalho. A diferença são os olhos dos outros. E, como predisse a Rita — no disco de vinil que se perdeu na baldeação das coisas para a casa nova — “um belo dia resolvi mudar e fazer tudo que eu queria fazer”: viver esta vida semiletrada de escritor.
E a comemoração pedia algo como um brinde à nova rotina. Então comprei meu terno de frilancer: um pijama de algodão com cara de dias frios. Pijamas são bem mais que roupas de dormir, se é que a senhora me entende. São como o status de ocupado no MSN: você atende quem quiser, como quiser. Se for importante, mandam e-mail.
E a coisa fluiu bem, fui me adaptando ao novo lifestyle e já andei me arvorando a cometer alguns abusos e combinações aleatórias. Como na quinta à noite em que desci pra pegar a entrega no portão, certo de que o elevador estaria vazio como de costume — prédio de cinco andares, mais de dez e meia. Nem me preocupei em achar o chinelo; fui mesmo com a pantufa rosa da namorada…
Levanta a mão quem acha que o elevador estava cheio. Na ida e na volta.
Crônicas
04/06/2010
Lembrei da infância quando cheguei na porta do banheiro e ela estava pegando a escova de dentes pra, finalmente, completar o ritual que a faz dormir em paz. Sim, ela sabe que o ritual pouco (ou nada) significa, mas se sente bem assim; em paz.
Então pegou a escova de dentes, pegou a pasta e liturgicamente esfregou primeiro os dentes de baixo e do lado esquerdo. É, porque quando a gente se propõe, a gente consegue pensar como o outro e quase saber o porquê de começar sempre do mesmo jeito e fazer os mesmos movimentos sempre, para tudo.
Na sequencia peguei eu a minha escova e fui na cola, roque-roque, quem caísse por último na cama era a mulher do padre. Então foi aí que lembrei-me da infância. Quando eu, a Carol e o Fê (irmãos que não saberia viver sem, não seria o mesmo se não os tivesse tão lindos) disputávamos a pia do único banheiro da casa na hora de escovar os dentes pra dormir.
E era com Kolynos a peleja. E quem já usou Kolynos sabe do eu estou falando. Quem ficava por último pra enxaguar a boca tinha que ser forte, porque ardia e não era pouco. A Carol, magrinha, era empurrada feito gata parida pro canto do banheiro e só se via lágrima escorrer. Maldades gostosas de criança.
Mas neste banheiro, vinte e tantos anos depois, não era mais Kolynos. Mas como essas coisas e condicionamentos ficam na nossa cabeça, contei o tempo de arder e ri saudoso. Rolou até um beijo com pasta de dente, mas isso é pra outra história.
Queria só falar que tenho saudades de ser criança. Tenho saudades de estar de férias o tempo todo, sem doer nem temer; sem pesar nem dar bola pros adultos.
Na real, esta história do beijo com pasta de dentes tem a ver com isso. Com a construção meticulosa da irresponsabilidade de uma criança, mas com cara de adulto. Sem arder.
Crônicas
20/05/2010
Antes das 8h30 da manhã nada funciona na minha cabeça. Aliás, depois das oito e meia e antes das dez, raras coisas circulam com fluência por aqui. Mas estava em Campinas para resolver coisas burocráticas e batia 8h no relógio do carro. Então parei na padaria. Café seria o jeito.
Como tinha ido só assinar um documento, não me paramentei com nada além do pijama e um tênis. Podia ser tido como qualquer mendigo, sabia. Mas como bom sagitariano, ia ser objetivo, quase cirúrgico. Café e pão.
Então esperava o atendimento, quando chega um senhor atlético e bem vestido, com ganas de passar na minha frente. Nada de vidência, o sujeito deu dois passos ao meu lado e se enfiou entre o meu corpo sonolento e o balcão para pedir um “café de bule”.
Sou bom moço, bem criado. Considerei a pressa do rapaz. Mas o olhar dele não deu pra desconsiderar. Tinha desdém. Sem dizer nada, em plena manhã de quinta-feira, fez questão de me colocar no meu lugar, na minha posição de subalterno e incontestável admirador da posição social da qual ele gozava.
Se eu sequer tivesse um lugar nessa roda da fortuna, talvez até eu reconhecesse o desprezo, talvez ficasse até sentido. Mas pra ser bem direto — e me desculpem as senhoras, é que não gastarei minha retórica com coisas sem importância — eu estava cagando pra ele.
E ele tomou o café bem mais rápido que eu, ignorou o pedinte na porta da padaria entrou no carro e se foi. Mas antes disso ele fez questão de me dizer quem era. Sacou o telefone como quem sacava um Startac em meados da década de 90, e disse para quem quisesse ouvir:
— Bom dia. Me chama o Otávio, por favor. É o Luisão da Fênix.
Bem, se eu soubesse de antemão que era ele, o Luisão da Fênix, talvez eu tivesse esperado na porta. Ou nem ido à padaria. Homens de porte merecem respeito.
Crônicas
05/05/2010
Entrou na sala do Oliveira segurando uma garrafa de Jack Daniel’s como se fosse um bebê. De fato, foi um parto conseguir uma solução para o problema, então a senhorinha voltou no 51º DP para agradecer ao delegado e ouvir dele alguma orientação dali pra frente, caso voltasse a ser importunada.
Foi numa manhã de sábado que Dona Deolinda conheceu o Alemão, pedreiro nato. Nato porque foi criado nas redondezas do Jardim Peri-peri, zona oeste de São Paulo, e lá aprendeu o ofício com o tio e os primos. Começou varrendo areia, passou a oreia seca, como manda o script, e de lá passou por quase todas as obras das redondezas — e também no Butantã. E foi no Butantã que conheceu Dona Deolinda, naquela manhã de sábado.
Foi a vizinha Laura que o apresentou. Mas Alemão tinha crescido e Dona Laura não sabia direito o que o rapaz tinha feito nesse tempo todo. Não sabia da passagem pela Febem, nada. Para ela, ele ainda era o filho da Verinha, empregada da antiga casa, em Pinheiros.
Alemão era desses pedreiros dedicados, mas também se dedicava a roubos e furtos nas horas de mente vaga. E nessas, tentou uma investida contra Dona Deolinda, senhora ativa no bairro, mas não muito afeita a delegacias e procedimentos radicais.
O rapaz montou foi acampamento na obra que deveria durar, no mais, uns quinze dias. Levou fogão, colchão e um machado.
Mês e meio depois de contratá-lo, Deolinda quis dar fim na história e pediu que ele saísse, pagando o ordenado todo mesmo a despeito do serviço findo. Foi o fim do sossego. Até com o machado ele ameaçou. Certo que talvez nem conseguisse com o peso da ferramenta, magro que andava o Alemão.
Por isso, por ficar sem dormir duas semanas com medo do Alemão, Dona Deolinda entrou no prédio do depê e foi recebida pelo Oliveira, no café. Tremia, a senhorinha de semblante bem mais que inofensivo. E o Oliveira, alto gordo e careca, colocou-lhe a mão no ombro e disse grave:
— Vem cá. Aqui, na minha sala.
A Dona Deolinda lembrava, a ele, muito a sua mãe. Que deus a tenha. E então foi pronto em levantar a capivara de Cláudio Barbosa Torres e Silva. Desses pretos-loiros, por isso Alemão. A impressora matricial cantou uns dois minutos e cuspiu uma ficha de seis ou sete laudas. Foi a conta pro delegado resolver o problema da própria mãe, que via ali, vivinha, na Dona Deolinda.
Uma versão melhorada, que ainda trazia uísque.
Crônicas
22/04/2010
Fora a brincadeirinha do título, fui mesmo a uma consulta médica. Dessas admissionais, em trabalhos novos. Não que me surpreendesse, mas não houve uma clínica pela qual passei ao longo dos meus dez anos de vida profissional, que não tivesse o mesmo ar de improviso. Mas seguiu-se que a atendente resolveu me ver, em pé, na sua frente:
— O senhor?
— Exame médico.
— Pode estar me emprestando o érregê?
—
— Pode estar aguardando que eu te chamo.
Então fui até o bebedouro, bebi água e me sentei na cadeira ao lado de uma senhorinha. E foi o tempo de sentir o almofadar da cadeira para a recepcionista me chamar. Como se eu não estivesse na frente dela, como se eu não tivesse acabado de falar com ela:
— Danilo Sanches?
—
— Seu érregê, senhor. Pode estar aguardando.
Então chegou um garotão desses bombados, que eu logo imaginei ter vindo fazer exame admissional para produtora de filme pornô. E saíram da salinha duas moças. Uma delas estava acompanhada da velhinha ao meu lado.
Quando o médico me chama.
Primeira à esquerda, segunda porta à direita. E uma bateria de perguntas sobre mazelas das mais diversas foi descarregada pelo doutor. A certa altura, de tanto dizer que não tinha nada daquilo, me senti quase constrangido a dizer que eu tive alguma artereoesclerose ou, quiçá, uma tal nefrofatia. Só pra não parecer chato ou deselegante.
“Porque será que exigem formação acadêmica para fazer um exame em que se faz dez ou doze perguntas, preenche-se um formulário e despacha?”, pensei eu, crente de que o doutor não fosse finalizar a sequência de desventuras com a surpreendente questão:
— Já fez exame de próstata?
— (suei) Não, senhor.
Seguiu-se um silêncio de três segundos e o médico levanta-se da cadeira e aponta para a maca.
Freeze.
Nesse instante, tudo o que já foi, em toda minha vida — em todas as minhas vidas — passou como um filme diante de meus olhos. Era então ali e naquela hora que eu me curvaria diante do “pai de todos”. Minha hora tinha chegado assim, sem avisar, sem protocolar pedido em três vias; por assim dizer, sem vaselina.
Minha vista escureceu, mas logo fui agraciado pela frase que se seguiu ao gesto:
— Sente-se ali na maca.
Crônicas
20/04/2010
Como se não houvesse amanhã, ela escova os cabelos e como se fosse manhã, faz o bochecho, veste a pantufa, prepara o café. Cada relógio em casa marca uma hora diferente, mas ela “just don’t care”. E num jogo de palavras, usando o fonema de “care”, poderia dizer que ela “apenas não quer”.
Sim, ela apenas não quer olhar pro tempo como algo real ou como algo que exista em detrimento do que ela sabe ser na verdade. Sim, ela sabe que, na verdade, seu “ser” não está sujeito a tempo algum, então desdenha das horas, desdenha dos passos cronometrados e põe na xícara, com leite, o café que há pouco preparou. Pode ter sido ontem; e ela “just don’t care”.
Pegou o jornal na soleira da porta, este sim, chegou bem mais cedo, fala de coisas de ontem, fala do medo do mundo, fala como se algo importasse realmente… E ela sabe que os prejuízos jamais chegam a ninguém, porque não há nada que abale, nada que ameace, nada que aflija quem “apenas não quer”. E ela não quer. Aliás, ela quer. Quer conhecer sua natureza, quer saber-se filha única de um criador, quer saber-se realmente forte e que não há culpa que a faça arremeter.
Sete gotas de adoçante na caneca. Não é cabala, são sete gotas de adoçante: o suficiente. E só. E então o dia lhe dá as caras e ela começa como se fosse o começo, mas é dia feito e ela vem pro mundo como se fosse um palco. Todo mundo ri e ela “just don’t care”. Todo mundo chora e ela apenas não quer. Para se enganar é só querer.
Por isso no quarto, na sala e cozinha, cada relógio conta uma história. Cada pedaço de tempo, uma mentira. Ela olha pras horas com cara de sempre e diz: fim.
Ela faz o café, sete gotas e pronto, são todas as horas em ponto e não há tempo que apague nem lhe arrefeça a vontade do caminho de casa. E ela “just don’t care”.
Crônicas
11/04/2010
Ela preparava um risoto, mas não era pelo trocadilho com riso — apesar de feliz, apesar da pobreza do trocadilho —, era porque o jantar era especial. Risoto de Shitake pra ser objetivo e preciso. Então o arroz foi para a panela com um pouco de cebola, dessas que vêm em vidro. Sim, minha avó a reprovaria caso fosse alguma candidata ao matrimônio.
Mas não havia eleição mesmo sendo ano de pleito. E na sequência do tempero, o vinho branco embebedou o arroz e arrastou as pequenas porções da cebola industrialmente picada para os cantos mais quentes da panela. Chovia para fora da cumbuca, chamava para si, o cheiro do condimento. Era madrudada de uma noite sem horas. Mas o jantar seria servido como se fora pontualmente agendado, rigorosamente como se fosse um encontro marcado.
Era um encontro marcado, mas não haviam regras postas. E a colher arrastou o arroz de um canto a outro da panela e misturou-se, pois, o sal a gosto. E não com menos gosto despejou a água e esperou ferver.
Sobre a tábua, os cogumelos perdiam os caules; um a um. E depois, com faca precisa, ela fatiava as partes polpudas em finas tiras tão compridas quanto a circunferência dos shitakes. Um vento frio esgueirou-se pela fresta da janela e lembrou que era início de inverno. Ao menos para a meteorologia; tempos outros eram aqueles.
E nem a fina brisa intimidou a fervura do cozido, que ganhou shoyu e mais um carinho com a colher. Ela cheirou o vapor. E arrepiou-lhe a pele o frio que já saia pela mesma fresta que entrou. É sempre verão para quem nasce em dezembro. Senão, ao menos para quem nasce em sagitário, há sempre um sol de prontidão. Ela tinha um sol a seu dispor.
As tiras banharam-se no papado de arroz. Então o vinho, que já aguardava aberto sobre a mesa, tingiu o vidro da taça até a porção de cima. Ela colocou o único prato sobre a mesa e se serviu.
Nenhum vento poderia mesmo arrefecer-lhe o coração. Era um encontro de amor.
O que andam falando