Tentei lhe dizer, mas ainda não tinha vivido o bastante pra falar sua língua; a língua dos práticos.Tentei entender também o que me contou, com seu silêncio ou com as poucas palavras, que a vida me cobraria postura, que aquelas garotas não eram pra mim, que ter ou não videogame não me faria um garoto melhor.
Na verdade, tinha me cansado do elogio das professoras e o das mães dos meus amigos. Tinha me cansado de afagos no alto da cabeça. Sim, por que não sabia ainda do que você falava. Mas você se foi tão cedo. À sua hora, decerto, mas foi cedo demais pra um garoto prodígio. É, velho, os garotos prodígio pisam no futuro, nas projeções dos adultos, e se rebelam na hora errada pra viver as delícias da infância e quando vêem; não são crianças, apesar do desejo incomensurável pela juventude dos outros e não são adultos, porque não cresceram como as outras crianças.
Eu fiz cara de sério quando me pediu, mas não entendia tudo do que dizia. E era só isso que eu queria ter dito. E não disse antes, porquê? Porque não sabia dizer isso na língua dos que têm filhos.
E quando me formei na língua dos que são pais, não mais filhos, você já não atendia o telefone sob o nome de papai no meu celular. Nem minha mãe ligou mais o telefone que era seu quando você se foi. E hoje eu tenho essa frase engasgada que tentei falar para os pais dos meus amigos, mas eles não entenderam.
E hoje tenho essa cidade, que um dia foi conquista sua também, na minha frente. A cidade que você pintou com suas cores, de onde você levou o novo mundo pro nosso seio. Hoje ela é meu dilema, minha vara de pescar.
Mil rostos me atravessam, penso ter visto o seu quando a saudade está mais aguda. Hoje não faz aniversário que você se foi, não é data redonda pra comemorar, não é símbolo dos mortos anônimos desse país de mentiras. Hoje nem é um dia em que acordei pensando em você, mas inexoravelmente quando me vejo pensando em mim, é você em mim que vejo. É sua mão esquerda sobre a minha riscando num papel um mapa por onde pisar, mesmo sabendo que o meu caminho vai ser outro.
Se te visse hoje não diria nada.







Quem conhece essa saudade, sabe a dificuldade de falar sem cair num clichê gigante. E vc, como sempre, consegue ser lindamente poético *até nas coisas mais tristes e melancólicas*.
Algumas coisas, talvez as mais importantes, não precisam ser ditas. Um beijo *um só*
Cara, foi uma das coisas mais bonitas que eu li em muito tempo…bonito porque transparece o sentimento, a perda, a saudade, sem nada mais do que o necessário. Tenho certeza que seu pai teria muito orgulho de te ver hoje, ver tudo o que você conquistou e a pessoa maravilhosa que você se tornou.
Sem palavras……..