Lendas e amigos que já viajaram para a Europa contam histórias pavorosas sobre ônibus sem cobradores, estações de trem sem catraca; coisas de ficção científica.
A ousadia é tanta, que há alguns anos um antigo chefe me contou após voltar de viagem ao interior da Alemanha, que presenciou o bizarro: havia uma feira, qual nossas feiras livres, com abobrinhas, espinafres e toda sorte de berries — coisa do hemisfério norte. Exceto por um detalhe não era uma cópia germânica das nossas quitandas itinerantes: a figura do feirante, esse capiau barrigudo, por vezes japonês, que pilota a balança caindo de ferrugem e escolhe o preço do maço de cheiro-verde de acordo com a cara do freguês, simplesmente inexistia.
Isso. Meu chefe chega de viagem da Europa com a história de que comprou frutas — certamente berries — numa feira à margem da estrada, onde tinha uma caixinha para que se deixasse o dinheiro da compra que o freguês, à la self-service, bem escolheu.
Agora, numa versão genuinamente brasileira, essa feira não teria a menor chance de existir. Se não por que somos um país de lânguidos esfomeados, então por que somos sujeitos sem ética ou a menor vergonha na cara.
Se são apenas os milhares de anos de história que nos afastam dos descendentes de Saxões e Celtas, tanto melhor. Pois então temos uma esperança de daqui a alguns milhões de anos podermos ver feiras à beira da Dutra ou na serra de Santos vendendo carambolas viçosas e, ao lado, uma caixinha intacta que guarda os quinhões de um agricultor qualquer.
Mas enquanto esse dia não chega, faço minhas pequenas tentativas de mudar esse paradigma rançoso da cultura patropi. Na rodoviária de São Paulo, numa tarde quente dessa primavera, parei para preencher meus dados no bilhete, como exige a nova regra. Nisso, chega uma moça que ia pegar o mesmo ônibus que eu e procura sem sucesso uma caneta pública, dessas presas por correntes. A única que encontrou estava sem a carga, que fora devidamente arrancada do lugar.
Estiquei, então, a minha caneta, sorri e caminhei para o ônibus, certo de que ela fosse entrar logo depois e me devolver a caneta. Sonho meu. Eu, que não quis que minha presença à espera da caneta apressasse e, talvez, constrangesse a mulher, saí confiante e sentei na poltrona da janela, de onde vi a mulher terminar calmamente o procedimento, guardar a caneta na bolsa e sentar-se como se estivesse na Dinamarca, onde tudo é de todos porque nada falta a ninguém.







Sanches, sanches, Sanches!!!!!!! Primoroso, divertido, pertinente, coeso, literário, preciso!! Continua!!!