Como se não houvesse amanhã, ela escova os cabelos e como se fosse manhã, faz o bochecho, veste a pantufa, prepara o café. Cada relógio em casa marca uma hora diferente, mas ela “just don’t care”. E num jogo de palavras, usando o fonema de “care”, poderia dizer que ela “apenas não quer”.
Sim, ela apenas não quer olhar pro tempo como algo real ou como algo que exista em detrimento do que ela sabe ser na verdade. Sim, ela sabe que, na verdade, seu “ser” não está sujeito a tempo algum, então desdenha das horas, desdenha dos passos cronometrados e põe na xícara, com leite, o café que há pouco preparou. Pode ter sido ontem; e ela “just don’t care”.
Pegou o jornal na soleira da porta, este sim, chegou bem mais cedo, fala de coisas de ontem, fala do medo do mundo, fala como se algo importasse realmente… E ela sabe que os prejuízos jamais chegam a ninguém, porque não há nada que abale, nada que ameace, nada que aflija quem “apenas não quer”. E ela não quer. Aliás, ela quer. Quer conhecer sua natureza, quer saber-se filha única de um criador, quer saber-se realmente forte e que não há culpa que a faça arremeter.
Sete gotas de adoçante na caneca. Não é cabala, são sete gotas de adoçante: o suficiente. E só. E então o dia lhe dá as caras e ela começa como se fosse o começo, mas é dia feito e ela vem pro mundo como se fosse um palco. Todo mundo ri e ela “just don’t care”. Todo mundo chora e ela apenas não quer. Para se enganar é só querer.
Por isso no quarto, na sala e cozinha, cada relógio conta uma história. Cada pedaço de tempo, uma mentira. Ela olha pras horas com cara de sempre e diz: fim.
Ela faz o café, sete gotas e pronto, são todas as horas em ponto e não há tempo que apague nem lhe arrefeça a vontade do caminho de casa. E ela “just don’t care”.







Só vc mesmo pra chegar na hora certa e ainda topar a parceria de acabar com elas.Te amo!
Fazia tempo que não passava por aqui. Ótimo encontrar a senhorita do não tempo. Muito bom.
Abraço apenas querendo!