Entrou na sala do Oliveira segurando uma garrafa de Jack Daniel’s como se fosse um bebê. De fato, foi um parto conseguir uma solução para o problema, então a senhorinha voltou no 51º DP para agradecer ao delegado e ouvir dele alguma orientação dali pra frente, caso voltasse a ser importunada.
Foi numa manhã de sábado que Dona Deolinda conheceu o Alemão, pedreiro nato. Nato porque foi criado nas redondezas do Jardim Peri-peri, zona oeste de São Paulo, e lá aprendeu o ofício com o tio e os primos. Começou varrendo areia, passou a oreia seca, como manda o script, e de lá passou por quase todas as obras das redondezas — e também no Butantã. E foi no Butantã que conheceu Dona Deolinda, naquela manhã de sábado.
Foi a vizinha Laura que o apresentou. Mas Alemão tinha crescido e Dona Laura não sabia direito o que o rapaz tinha feito nesse tempo todo. Não sabia da passagem pela Febem, nada. Para ela, ele ainda era o filho da Verinha, empregada da antiga casa, em Pinheiros.
Alemão era desses pedreiros dedicados, mas também se dedicava a roubos e furtos nas horas de mente vaga. E nessas, tentou uma investida contra Dona Deolinda, senhora ativa no bairro, mas não muito afeita a delegacias e procedimentos radicais.
O rapaz montou foi acampamento na obra que deveria durar, no mais, uns quinze dias. Levou fogão, colchão e um machado.
Mês e meio depois de contratá-lo, Deolinda quis dar fim na história e pediu que ele saísse, pagando o ordenado todo mesmo a despeito do serviço findo. Foi o fim do sossego. Até com o machado ele ameaçou. Certo que talvez nem conseguisse com o peso da ferramenta, magro que andava o Alemão.
Por isso, por ficar sem dormir duas semanas com medo do Alemão, Dona Deolinda entrou no prédio do depê e foi recebida pelo Oliveira, no café. Tremia, a senhorinha de semblante bem mais que inofensivo. E o Oliveira, alto gordo e careca, colocou-lhe a mão no ombro e disse grave:
— Vem cá. Aqui, na minha sala.
A Dona Deolinda lembrava, a ele, muito a sua mãe. Que deus a tenha. E então foi pronto em levantar a capivara de Cláudio Barbosa Torres e Silva. Desses pretos-loiros, por isso Alemão. A impressora matricial cantou uns dois minutos e cuspiu uma ficha de seis ou sete laudas. Foi a conta pro delegado resolver o problema da própria mãe, que via ali, vivinha, na Dona Deolinda.
Uma versão melhorada, que ainda trazia uísque.







Ei,
Acho um passatempo delicioso ler seus posts.
beijos!
Muito legal, parabéns.