Lembrei da infância quando cheguei na porta do banheiro e ela estava pegando a escova de dentes pra, finalmente, completar o ritual que a faz dormir em paz. Sim, ela sabe que o ritual pouco (ou nada) significa, mas se sente bem assim; em paz.
Então pegou a escova de dentes, pegou a pasta e liturgicamente esfregou primeiro os dentes de baixo e do lado esquerdo. É, porque quando a gente se propõe, a gente consegue pensar como o outro e quase saber o porquê de começar sempre do mesmo jeito e fazer os mesmos movimentos sempre, para tudo.
Na sequencia peguei eu a minha escova e fui na cola, roque-roque, quem caísse por último na cama era a mulher do padre. Então foi aí que lembrei-me da infância. Quando eu, a Carol e o Fê (irmãos que não saberia viver sem, não seria o mesmo se não os tivesse tão lindos) disputávamos a pia do único banheiro da casa na hora de escovar os dentes pra dormir.
E era com Kolynos a peleja. E quem já usou Kolynos sabe do eu estou falando. Quem ficava por último pra enxaguar a boca tinha que ser forte, porque ardia e não era pouco. A Carol, magrinha, era empurrada feito gata parida pro canto do banheiro e só se via lágrima escorrer. Maldades gostosas de criança.
Mas neste banheiro, vinte e tantos anos depois, não era mais Kolynos. Mas como essas coisas e condicionamentos ficam na nossa cabeça, contei o tempo de arder e ri saudoso. Rolou até um beijo com pasta de dente, mas isso é pra outra história.
Queria só falar que tenho saudades de ser criança. Tenho saudades de estar de férias o tempo todo, sem doer nem temer; sem pesar nem dar bola pros adultos.
Na real, esta história do beijo com pasta de dentes tem a ver com isso. Com a construção meticulosa da irresponsabilidade de uma criança, mas com cara de adulto. Sem arder.







…E esta era a história que o casal de Joaninhas aposentadas mais gostava de contar pros seus netos…
Sei que é brega, mas ouçamos o Milton: ‘Toda vez que a tristeza me alcança o menino me dá a mão’