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nunca fui blogueiro, mas acho essa história de blog bacana. Quando crescer quero parar de trabalhar.

Crônicas

Ao amigo

Encontrei entre os emails enviados uma carta a um amigo. E num acesso de nostalgia ou de súbito encanto com a beleza e a verdade do que foi dito (escrito) na carta, resolvi publicá-la aqui. Quem sabe de algum lugar, de alguma forma, esta carta não seja a de um pai para um filho, de um irmão que se mudou para Nova Iorque…

4º dia de maio de 2009.

Uma vez, no infinito da nossa adolescência, quando eu esgueirava pelo caminho que hoje é minha trilha para o fim (apenas porque esse é todo nosso destino), você me contou que teve um sonho. E, ao descrever-me, eu desconversei e disse que não seria possível — ingênuo como sempre.

No sonho você me assistia tocar, com meu violão folk, sozinho no palco. Você sabia que aquilo significava algo. Mas mesmo negando, a imagem me acompanhou por todo o tempo e a cada decisão nova, a cada situação nova, a cada Natal e Ano Novo, eu conferia à minha volta para ver quem estava sobre o palco. Então respondia para o Gil: tá vendo, Gil? Não tem o que temer, está todo mundo aqui no palco.

Então, ainda há pouco, a nuvem se dissipou e olhei em volta. Vi-me fazendo planos e considerando curto, médio e longo prazo, vi-me novamente sobre o palco. E cá está meu violão folk e meu banquinho, meu caro. Exatamente como descrito há poucos anos atrás, quando ainda o sinal estava fechado pra nós. Hoje o verde grita e, quer queiramos ou não, temos que nos mover para não sermos atropelados pela turba, pelo destino, pela culpa ou por nós mesmos.

Então, meu amigo, você estava certo e viu. Mas olho, ainda mais uma vez, para a cena e vejo que o que trilhei ao mesmo tempo que não era inexorável — posto que somos donos de nosso destino —, estava escrito nas estrelas dos meus anseios, das minhas buscas, das ilusões voluntárias. Essa liberdade que perseguimos, vorazes, existe no não-lugar. Livres para as escolhas e subjugados nas consequências somatizadas entre contexto, passado, presente e futuro. Somos donos do nosso destino, sim, mas ele reside no futuro e desse futuro não somos donos.

Agradeço o olhar, a dica e, se ainda houver tempo, olharei mais uma vez para mim sobre o palco como quem observa o futuro sem nele tocar. Ao menos para aprender com ele e não esquivar das oportunidades de ser feliz, em busca de toda sorte de desejos que não cabem no nosso pequeno embornal. Nunca fiz por ganância, ao menos não deliberadamente, nunca quis ser mais ou outra coisa que não o que sou; e não sou lunático o bastante para culpar o destino.

Grande abraço de saudades,

do amigo

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