Uma aliança, imagine a senhora que uma rodelinha de metal vagabundo, quiçá presenteada por um apedeuta qualquer, foi responsável por dilacerar e jogar aos cães um par de sonhos; uma meia dúzia de planos. Uma simples aliança rasgou da estante a foto das crianças na Disney, quebrou da cristaleira o jogo de taças artesanais da Patagônia, presente de uma tia ou de amigos próximos.
Veja a senhora que eu olhava inocentemente um par de sapatos. Saltos honestos, dois centímetros, talvez, forrados de um pano preto, que se estendia para a lateral do par de pés brancos. As peles finas desse par de pés deixavam sorrateiramente ver uma ou outra veia roxinha, como o véu das dançarinas egípcias, que esconde o óbvio e seduz pelas frestas com os segredos que revela como iscas. E antes de cair em si, o observador já está laçado e vítima de seus perfumes.
Pois olhava eu esse par de sapatos, que guardavam pés, quando de repente fui surpreendido por duas panturrilhas viçosas embaladas até a metade superior por um tecido escuro que lhes envolvia fielmente às curvas e, sem mostrar, me dava a certeza de que a maciez da pele e a textura das carnes que se expunham — uma delas enlaçada por uma tornozeleira dourada que badalava um pingente que lembrava um anjo — era a mesma das que se reservavam sob o tecido.
Nada me tiraria a concentração naquele momento não fosse notar que dos joelhos finos para cima ganhavam forma um par de coxas de veludo semiescondidas pela barra de um vestido xadrez, que me servia as peças e convidava a deleitar-me num embate de bispos e rainhas, numa fuga de cavalos e torres; ou quem sabe a me esconder num dos bolsos que furtivamente se enrugavam sob o jugo de um elástico. Me fazia pensar que a vida, sim minha senhora, a vida caberia toda n’apenas um daqueles bolsinhos.
Veja a senhora que eu sequer nem filho de costureira pude ser, para saber dizer se poucos metros ou com quantos quilos de tecido branco eu enoivaria aquela forma plácida que segurava a bolsa com a mesma mão que jogaria as flores para as costas, onde as amigas ímpares se degladiariam por talvez beber da mesma sorte.
Pedi intimamente para que não se virasse, mas ela, como se tendesse a um certo sarcasmo deu dois passos rumo à borda da calçada, mostrou-me os ombros salientes — uma estância de reconforto — nas costas cavadas do vestido que escorria pela lombar e emoldurava as ancas fartas e desenhadas por algum daqueles nomes de pintores renascentistas. E ergueu o braço acenando ao ônibus, que mais que depressa respondeu com a seta — encostaria, sim, e a levaria onde quisesse. E então o sol, que vazava pelos vãos dos prédios que ciliam a avenida Paulista, às dez e pouco da manhã, iluminou-lhe a mão direita refletindo uma luz cegante vinda daquela aliança, que de um facho me arrebatou os olhos e, sem esperar, amorteceu o coração. Sim, minha senhora, isso é como a morte para um amor que já nascia leve, que já cosia os rumos de uma vida intensa e a dois.







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