RSS de danilosanches

Quem?
já fui vascaíno e desisti, jornalista e arremeti; já fui de esquerda e desencantei, agora ando avaliando o fato de ser eu.

Crônicas

Risoto de Shitake

Ela preparava um risoto, mas não era pelo trocadilho com riso — apesar de feliz, apesar da pobreza do trocadilho —, era porque o jantar era especial. Risoto de Shitake pra ser objetivo e preciso. Então o arroz foi para a panela com um pouco de cebola, dessas que vêm em vidro. Sim, minha avó a reprovaria caso fosse alguma candidata ao matrimônio.

Mas não havia eleição mesmo sendo ano de pleito. E na sequência do tempero, o vinho branco embebedou o arroz e arrastou as pequenas porções da cebola industrialmente picada para os cantos mais quentes da panela. Chovia para fora da cumbuca, chamava para si, o cheiro do condimento. Era madrudada de uma noite sem horas. Mas o jantar seria servido como se fora pontualmente agendado, rigorosamente como se fosse um encontro marcado.

Era um encontro marcado, mas não haviam regras postas. E a colher arrastou o arroz de um canto a outro da panela e misturou-se, pois, o sal a gosto. E não com menos gosto despejou a água e esperou ferver.

Sobre a tábua, os cogumelos perdiam os caules; um a um. E depois, com faca precisa, ela fatiava as partes polpudas em finas tiras tão compridas quanto a circunferência dos shitakes. Um vento frio esgueirou-se pela fresta da janela e lembrou que era início de inverno. Ao menos para a meteorologia; tempos outros eram aqueles.

E nem a fina brisa intimidou a fervura do cozido, que ganhou shoyu e mais um carinho com a colher. Ela cheirou o vapor. E arrepiou-lhe a pele o frio que já saia pela mesma fresta que entrou. É sempre verão para quem nasce em dezembro. Senão, ao menos para quem nasce em sagitário, há sempre um sol de prontidão. Ela tinha um sol a seu dispor.

As tiras banharam-se no papado de arroz. Então o vinho, que já aguardava aberto sobre a mesa, tingiu o vidro da taça até a porção de cima. Ela colocou o único prato sobre a mesa e se serviu.

Nenhum vento poderia mesmo arrefecer-lhe o coração. Era um encontro de amor.

Crônicas

Giovana prazer

Instado a conhecer uma certa casinha de esquina, próxima ao seu trabalho, caminhou quadra e meia sob a luz equivocada do único poste que funcionava na noite nublada, de lua distante. O Celso, motorista da empresa, tinha comentado na recepção no dia anterior. Comentou pra sacanear o Barbosa, que é crente. Falou que lá no dito lugar conheceu a Silvinha (com um ípslon que eu me recuso a reproduzir), que faz boquete sem camisinha e cavalga pesado, mais do que seu metro e meio — quase menos — fazia imaginar. E o Barbosa nem quis ouvir, e falou daqueles clichês que envolvem sangue, cristo e poder.

Então, instado pelos vinte e poucos dias sem cheirar uma pele macia, sem pegar tetas durinhas, nem sentir o peso em chamas saturando o cerebelo de serotonina, foi na tal casinha conhecer a Sílvia com ípslon.

Abriu a porta uma japinha de xadrez. Desceu o dedo pela haste da grade até chegar na fechadura, onde um molho de chaves pendurava um desses brindes de candidato a vereador. Mas ele não viu chaves, não viu político; viu foi um racho descabido no vestido da japinha donde pulavam duas ou mais tetas que em tempo algum seriam dela. Mas combinavam tão bem com o sorriso safado, que ele não lembrava se o xadrez era verde e preto ou fúcsia e ocre. Quiçá três cores.

Afastou os dedos dos pés e pisou no “vindo” do bem-vindo que o capacho cumprimentava. Alçou a mão na cintura da japinha, que recusou dizendo que era só recepcionista e ele retrucou “quero você”.

“Não, moço. Vou te apresentar as menina da casa” e ele insistiu, agora com a mão escalando a polpa da bunda incrivelmente apetitosa. Um passo pra trás e ele avistaria dois sofás vermelhos e um monitor de LCD ligado na Globo. Noutro canto, um carinha da regata trocava longamente um galão de água mineral.

“Vou chamar as menina” e nem deu tempo de chegar com o cavanhaque no pescocinho dela.

A primeira lhe chegou como quem chega de longe. Deu-lhe um beijo de selinho e apertou os seios com os braços enquanto falava “Camila prazer” numa poesia caleidoscópica de perfume e melanina. Queria mesmo eram os cem contos da meia-hora a que se disporia a tratá-lo como rei, a vagabunda.

Se a segunda o beijasse na boca ele fechava com ela ali mesmo. Loira de um metro e sessenta, coxas grossas e uma cintura angulada que empurrava a bunda tão alto, que o cós da frente da calça escondia centímetros da pele branca de penugem loirinha.

“Giovana prazer”, mas tinha um quê de saco cheio aquela voz. Talvez preferisse a rua, onde só chegava perto de carrão. Tinha também uma cicatriz coberta por base do lado esquerdo do rosto, que podia explicar mais ou menos seus motivos.

A quinta lhe mostrou a calcinha por debaixo do vestido e ameaçou abrir-lhe o zíper com o dente. Mas ele jamais lembraria o nome dela. Tampouco subiu ao quarto com nenhuma, nem despediu-se de acordo da japinha. Pisou no “bem” e sumiu na rua semiescura, que não levava pra sua casa nem respondia o porque daqueles olhos baixos da tal Giovana.

Uma puta triste pra ele era um contrasenso. Mas não ia contar pro Barbosa senão era motivo pra falar de deus. Aliás, não ia contar pra ninguém mesmo. Talvez fosse mal paga; e só. Tanta coisa que ele nunca ia saber…

Saberia menos ainda na semana seguinte, quando a porta fosse aberta pelo carinha de regata enquanto a japinha subia com um tiozão; a Camila então fosse Bianca; e uma outra tivesse nome irreconhcível, que ele nem pedisse pra repetir, e fosse embora pra não ver sorriso na cara da Giovana; talvez outro nome, talvez nem se lembrasse dele.

Crônicas

O Osvaldo pode

A moça no trem, tipo falsa-bonita, se gabava pra amiga da proposta que recebeu do chefe. O rapaz, certamente de meia idade — pelo naipe da proposta —, estava de casamento marcado, como contava a moça enquanto o trem se embrenhava no mato rumo à estação Barra Funda.

Lilian era dessas de 27 anos, de pele branca e com seios grandes, desses que deixam a moça até corcunda. O nome do affair vim a saber depois: Osvaldo.

A interlocutora, morena de cabelo pintado mais preto ainda, era dessas com complexo de patinho feio. Gordinha e malvestida, devia estar sofrendo com a chegada dos 40 anos e descontava no lápis de olho.

— Menina — dizia Lilian — e ele falou que me punha na casa dele, com empregada e tudo e eu não ia precisar fazer nada.

Sonhos dizem muito sobre o sonhador.

Então, diante do espanto descrente da amiga, forjou um sorriso recato e prosseguiu:

— Eu falei: ‘não, você não vai casar com a outra lá?’. Ele disse pra eu ir com ele antes dele casar, que me punha na casa dele e largava ela.

Ah!, as mulheres. É como se na frente dos mais lascivos pedreiros elas fossem virgens pudicas horrorizadas por ouvir um ‘Êh, morena’, mas em casa contabilizassem e dividissem por categorias as cantadas para exibir às amigas.

A indignação pela proposta do chefe — que não devia ser nem gerente, senão a proposta seria mais direta e não envolveria nada a longo prazo — não passou de um suspiro. Como se prevalecesse a insana vontade de um apoio da amiga. Algo como:

— Vai menina, tá boba, perder um filé que nem o Osvaldo?

Dá-lhe Osvaldo — que talvez seja até com ‘W’.

Crônicas

O mistério da fábrica de salsichas

Coisa que jamais farei, por exemplo, é visitar uma fábrica de salsichas. Estas, que são meu alimento dioturno na preguiça dos fins de noite. Às vezes permeando um pão francês, outras compondo um molho rápido e não menos acintoso à saúde.

Fábricas de salsichas são como a cozinha daquele boteco na esquina da quinze de novembro, perto da Bovespa, no centro de São Paulo. Lá, onde afogo algumas manhãs de sábado em um litro de suco natural de goiaba, feito na hora, também é feito um salgado de presunto e queijo cuja origem deve permanecer no mistério. No oculto. Assim como a origem das salsichas. Para o bem de uma boa refeição. Do ponto de vista do prazer: este tenso inimigo da saúde humana.

Pois ao caminhar pela estação Barra Funda, que é um legítimo depositório de esquisitices — bem mais do que jamais poderia ser uma fábrica de salsichas —, encontro-me sempre com uma porção de pães de queijo. Lindos e rechonchudos, estão sempre macios e quentinhos. Passe a hora que passar, eles estarão ali, saborosos e resignados, sempre prontos para ceder a qualquer mordida.

Pergunto, eu, sobre a origem destas maravilhas? Jamais. Ainda mais porque em tempo algum presenciei alguém fazendo a reposição dos dito-cujos. Quer dizer, a menos que alguém negue com força, os pães de queijo chegam tão logo chegam as atendentes e ali permanecem até o fim da jornada. Macios, precisos e quentinhos.

Se a vingança é um prato que se come frio, a ignorância é um que se come de olhos vendados.

E nada acompanha melhor um chá gelado, à espera do trem ou do metrô na Barra Funda, que uma porção de dois reais — que traz contados dezesseis pães de queijo — de uma dúvida fugaz: será que são de hoje?

Crônicas

Web 3.0

Andei procurando um caderninho no qual anotei uns sites. Da época em que trabalhava num jornal do interior ainda. Não que o fato de o jornal ser do interior signifique lá alguma coisa, uma vez que eu também sou do interior; dá pra entender?

E outra, essa nomenclatura é deveras estranha. Na real, só o que não é interior é o litoral. E parece que dois terços da humanidade habita as zonas costeiras. Pelo menos era assim nas aulas de geografia.

Mas o caderninho. Nele eu anotava todos os sites bacanas que encontrava pela frente, por pura preguiça de salvar nos favoritos; exportar esses favoritos para um arquivo; enviar o arquivo por e-mail e atualizar o processo toda vez que encontrasse um site legal. E, no fim, ele supria minha necessidade de uma internet menos literal.

Eu, que sempre achei RSS coisa de nerd, até tentei apelar, mas sem muito êxito.

Mas eis que na procura pelo dito bloquinho encontrei uns recortes de jornal — na verdade o que chamei de caderninho era um amontoado de folhas para rascunho, cortadas em tamanho de bloco e presas na parte superior com cola bastão; um procedimento arcaico, sei. E nos tais recortes, encontrei um dos endereços que procurava: Insuggest.

Foi um dos sites que mais me impressionou na época (falo de algo em torno de três anos atrás). Funciona como as páginas amarelas da lista telefônica: um barato, mora?

O caderninho não achei mesmo, mas pelo Insuggest consigo achar o site que quiser a partir de um parecido.

No recorte de jornal estava:

Web 3.0? É realidade no buscador do site Insuggest. A fórmula é esquecer a navegação por palavras-chave e buscar por tags e contexto. O serviço indica, a partir de um endereço que você conheça, outros sites parecidos em toda a internet. Eis a web semântica! http://web.insuggest.com/

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Crônicas

Listas

Aberta a temporada de confecção de listas, sigo eu pensando se faço alguma dessa vez. Já tentei, confesso, mas nunca consigo chegar ao terceiro item.

Mas entrei nessa de listas, porque esses dias achei no fundo de uma mala um papelzinho dobrado assimetricamente — um acinte ao meu TOC — e peguei-o para jogar fora. Antes, li.

Era uma lista, dessas que se faz no limite do desespero, sobre coisas que têm que ser resolvidas para que a vida possa seguir curso. Pois bem. A vida tinha seguido curso e, antes de amassar o papelzinho risquei item a item que, há cerca de um ano atrás estavam em pendência.

Então pensei que, se a lista de coisas ficou lá, no fundo da mala, por um ano e isso foi tempo pra realizar as tarefas, eu devo estar apto para fazer o ritual da lista de ano novo. Separei papel e caneta para o dia, ao som de Roberto Carlos, elencar meus ’sim’ e ‘nãos’; meus ‘queros’ e ‘precisos’; meus ‘não devo mais’ ou ‘talvez deva’.

Fins de ano, ao menos a mim, são tempos graves.

Crônicas

2 Brahmas e 3 coxinhas

A esmerosa arte de sentar num boteco, desses sem grife, e tomar uma cerveja sozinho na companhia de uma coxinha de frango, exige um cálculo absolutamente preciso para que não se incorra em erros logísticos. E a coisa é assim mesmo, cheia de termos complexos e adjetivos com mais de três sílabas. Pro peão ficar esperto.

Pois veja a senhora, que se sentar à beira de um balcão de granito lavado semanalmente — quando muito esfregado com pano e água — e pedir uma Brahma e uma coxinha não é tão fácil. Mesmo se ao fundo puder observar as conversas mais sui generis de homens amarrotados de um dia fastidioso, e mulheres sentadas aos bandos em mesas rodeadas de cadeiras, falando mal do Gouveia, que xaveca todo mundo e, esses dias comeu a ascensorista. É uma arte, minha senhora.

Na primeira mordida da coxinha, que mesmo tendo sido pedida depois da cerveja, chega antes, você engole o seco da garganta e prepara para a ode do copo suado que se segue quase inexoravelmente de um ah! Note que a frase ao garçom é sempre ‘amigo: uma Brahma e uma coxinha’.

E então começa o processo em que, mordida após gole, ao final da coxinha restam 25% do conteúdo da garrafa. O que é muito para se beber sem comer nada e pouco para acompanhar outra coxinha. Então você pede outra coxinha, que fatalmente seca a garrafa e te deixa com uma porção do salgado na mão grande demais para uma última mordida.

Então pede outra cerveja.

Esta sim, acaba de vez com a coxinha e, numa batida de olho, te dá segurança para pedir mais um empanado de farinha com fiapos de frango — formato gota — sabendo que acabarão juntas, prazerosas como um júbilo orgástico de amor em cama de cetim.

Estratégico. É a conta da felicidade, por menos de quinze mangos.

Crônicas

Porque ainda não moramos na Dinamarca

Lendas e amigos que já viajaram para a Europa contam histórias pavorosas sobre ônibus sem cobradores, estações de trem sem catraca; coisas de ficção científica.

A ousadia é tanta, que há alguns anos um antigo chefe me contou após voltar de viagem ao interior da Alemanha, que presenciou o bizarro: havia uma feira, qual nossas feiras livres, com abobrinhas, espinafres e toda sorte de berries — coisa do hemisfério norte. Exceto por um detalhe não era uma cópia germânica das nossas quitandas itinerantes: a figura do feirante, esse capiau barrigudo, por vezes japonês, que pilota a balança caindo de ferrugem e escolhe o preço do maço de cheiro-verde de acordo com a cara do freguês, simplesmente inexistia.

Isso. Meu chefe chega de viagem da Europa com a história de que comprou frutas — certamente berries — numa feira à margem da estrada, onde tinha uma caixinha para que se deixasse o dinheiro da compra que o freguês, à la self-service, bem escolheu.

Agora, numa versão genuinamente brasileira, essa feira não teria a menor chance de existir. Se não por que somos um país de lânguidos esfomeados, então por que somos sujeitos sem ética ou a menor vergonha na cara.

Se são apenas os milhares de anos de história que nos afastam dos descendentes de Saxões e Celtas, tanto melhor. Pois então temos uma esperança de daqui a alguns milhões de anos podermos ver feiras à beira da Dutra ou na serra de Santos vendendo carambolas viçosas e, ao lado, uma caixinha intacta que guarda os quinhões de um agricultor qualquer.

Mas enquanto esse dia não chega, faço minhas pequenas tentativas de mudar esse paradigma rançoso da cultura patropi. Na rodoviária de São Paulo, numa tarde quente dessa primavera, parei para preencher meus dados no bilhete, como exige a nova regra. Nisso, chega uma moça que ia pegar o mesmo ônibus que eu e procura sem sucesso uma caneta pública, dessas presas por correntes. A única que encontrou estava sem a carga, que fora devidamente arrancada do lugar.

Estiquei, então, a minha caneta, sorri e caminhei para o ônibus, certo de que ela fosse entrar logo depois e me devolver a caneta. Sonho meu. Eu, que não quis que minha presença à espera da caneta apressasse e, talvez, constrangesse a mulher, saí confiante e sentei na poltrona da janela, de onde vi a mulher terminar calmamente o procedimento, guardar a caneta na bolsa e sentar-se como se estivesse na Dinamarca, onde tudo é de todos porque nada falta a ninguém.

Crônicas

Pague pra ver

Num bar meio vazio, ao redor das esquinas onde as princesas valem ouro, chega-se perguntando da Brahma como quem pergunta da saúde de um amigo em comum. Em troca, o sorriso do garçom — amigo imediato e sincero — responde que esse é o caminho que leva à garrafa mais gelada escondida no fundo do freezer pra um bom final de noite.

Existe um quadrilátero em São Paulo onde a felicidade não rima com sexo por menos de uma porção generosa de um salário mínimo. Se não for a abonar diretamente o ato, é a cortejar ou adular qualquer fêmea que se disponha a um papo menos brega. Por ali qualquer caminho leva à carteira.

A Jaqueline deixa claro — bem claro, digo — que ainda financia o par de tetas e não abre mão; não abre negociação alguma por menos de cent’cinqüenta. Ela pronuncia com trema, a despeito das novas convenções luso-tupiniquins. A despeito dos olhares que mergulham nos seus brinquedinhos novos.

Mas diversão também tem rimas pobres naquelas bandas. Pobres pra quem sente solidão e sabe que dinheiro seria a tônica, ora ou outra, ao lado das garotas com decotes pouco menos assertivos: vitrines de um produto que não tem preço fixo como os da Jaqueline. Ali, do lado de dentro do bar, onde o caderninho disputa espaço no granito barato do balcão com o prato do espetinho entre o copo e a garrafa âmbar, as chances são diminutas, porque a medida é o constrangimento dos olhares; o preço é a etiqueta que labela a roupa. Seja a marca da moda, seja o embuste do momento.

A cocota da meia desfiada abraça o maço de cigarros do topo do catálogo e bate o calcanhar no meio-fio enquanto a lei anti-fumo não cai em desuso. Aqui, neste boteco solitário, as pequenas têm cabelos curtos, falam grave e têm cílios que são cercas eletrificadas.

Crônicas

Chegou tarde

Eis que bate na minha alargada caixa de emails um título que me trouxe reminiscências. Lacônico, o título da mensagem eletrônica dizia “Desumidificador”.

Tem dez dias que me mudei para uma casa menor, aliás um quarto, ainda em São Paulo por desconhecer o produto da Cappoia — sim, abri a mensagem. O tal produto me foi oferecido através do email geral da redação, onde aterrisam zilhares de spams com toda sorte de ‘enlarge your penis’.

Eu vivia feliz numa casa no Butantã, vizinho de uma floresta amistosa e simpática; lar de matracas, sabiás, cururus e curupiras, até que uma cachoeira resolveu instalar-se na parede da sala. Pelo lado de dentro. Uma cachoeira tímida, que mais parecia uma película d’água a escorrer permanentemente pela tinta antimofo, antifungos, anti-higiênica, mas nunca; nunca antiágua.

O passar dos dias deu mais confiança à cahoeira, que se mostrava com fortes intenções de inundar minha sala, e ela então trouxe uma amiga que escorreu pelo teto da cozinha e pingou por dias no chão e no braço da poltrona que demarcava o cantinho do computador.

Sem solução aparente, senão a de derrubar a casa e reconstruir; e sem disposição para esperar no relento até que o proprietário se dispusesse a fazê-lo, me mudei. E hoje, apenas hoje, quando imagino que as cachoeiras já tenham predominado no ambiente em que vivi cenas impagáveis como a do sabonete Dove, que as senhoras tanto gostaram, me aparece um produto desses.

Sobre os comentários, aliás, os recebo mais verbalmente do que escritos neste despropositado blog.

E, caso queiram saber, o Desumidificador da tal Cappoia se diz capaz de salvar móveis, roupas e alimentos: tudo o que perdi pro mofo na inundação lenta, gradual, mas não menos perversa que abriguei em minha ex-casa.

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